Uma ampla pesquisa, do programa de doutorado da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), baseada em meta-análise com seis ensaios clínicos internacionais envolvendo o uso de canabidiol (CBD) em pacientes com epilepsia refratária — aquela que não responde a tratamentos convencionais — mostrou a eficácia da medicação a partir de doses que variam de 2,5mg a 20mg. Pelos resultados, o CBD reduziu, em média, as crises convulsivas em 41%, enquanto o grupo placebo apresentou uma queda de apenas 18% — uma eficácia 127% maior.
O estudo reforça o potencial terapêutico do canabidiol no controle da epilepsia de difícil tratamento, com evidências consistentes de melhora na qualidade de vida dos pacientes. A análise contribui para consolidar o uso do CBD como uma alternativa viável e segura dentro da prática clínica, sobretudo em quadros de alta complexidade.
De acordo com o estudo, 20% dos casos de epilepsia são refratários, inclusive, apresentando pelo menos duas crises de convulsão por mês, apesar da dupla medicação convencional. Para os experimentos, a maioria recebeu doses de 2,5mg a 5mg diárias por 12 a 14 semanas, conforme cada caso. Houve, ainda, casos em que o paciente que usou 20mg, apresentando melhora expressiva no quadro de saúde. Ao final, a dose de todos foi reduzida em 10% até a suspensão total do uso do canabidiol.
Em comparação com a redução média de 18,1% nos grupos placebo, em que foram dadas baixas doses de medicamentos convencionais, a resposta teve uma taxa 127% maior nos pacientes que receberam a intervenção canábica. “O canabidiol trouxe um benefício adicional, reduzindo significativamente o número de crises nos pacientes refratários, uma melhora na qualidade de vida e outros benefícios secundários”, disse o cientista.
Ação
Santos lembrou que a epilepsia tem várias causas, desde algo que está irritando o cérebro, como um tumor, à malformação, à alteração degenerativa, por exemplo. O pesquisador explica como ocorre a convulsão. “Convulsão é o fenômeno motor, é a pessoa ter aqueles abalos musculares durante a crise epiléptica, mas nem toda a crise epiléptica é convulsão.” Para controlar essa anormalidades específicas da crise epiléptica, ele disse que “o canabidiol tem um mecanismo de ação mediado pelo sistema endocanabinoide, que tenta compensar a hiperexcitabilidade aumentando a produção de endocanabinoides”.
Identificado em 1992, o sistema endocanabinoide é formado por neurotransmissores produzidos pelo organismo humano — os chamados endocanabinoides — e de seus receptores, como os CB1 e CB2, presentes em diversas partes do corpo, incluindo o cérebro e o sistema nervoso central e periférico. Ele desempenha um papel importante na regulação de processos como dor, inflamação, apetite, sono e humor. Estudos recentes destacam a capacidade de reduzir a sensação de dor, influenciar a memória e proteger o sistema nervoso em alguns casos.
“O sítio de ligação (do sistema endocanabinoide) desse ativo específico (canabidiol) vai ter várias ações que acabam controlando as crises. O ativo aumenta o limite da pessoa a convulsão”, ressaltou o pesquisador. “É uma lógica semelhante a das medicações comuns, só que por uma outra via. As medicações clássicas vão agir no canal de sódio da membrana celular, por exemplo, bloqueando esse canal. A célula fica menos excitável com menor capacidade de gerar uma crise.” A comunidade científica estuda essa interação do CBD no sistema.
O médico reforça a importância deste estudo por “trazer a relevância e mostrar a evidência científica em cima do uso do canabidiol para epilepsia refratária, porque, quando fugimos da ciência, fica uma questão política baseada em achismos”, destacou.
Fonte: Correio Brasiliense
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