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Os brasileiros que largaram diploma e carreira no Brasil para viver de faxina em Londres

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Do G1 notíciais

Há um ano, quando a engenheira civil Lívia, de 28 anos, deixou João Pessoa, na Paraíba, ela acreditava que Londres seria o ponto de virada da sua vida.

Graduada e mestre pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ela chegou à capital britânica com visto de turista para estudar inglês e, depois, planejava buscar trabalho em sua área.

“Aprender inglês era meu principal objetivo. Sempre fui apaixonada pela cidade, pela arquitetura e pela cultura. Queria mudar de vida, já que não via nenhuma perspectiva na minha área no Brasil, ainda mais no meu Estado”, conta Lívia.

Como todos os imigrantes brasileiros entrevistados nesta reportagem, ela pediu para não ser identificada por seu nome verdadeiro.

recomeço de Lívia veio acompanhado de dificuldades para validar seu diploma brasileiro — um processo que, segundo ela, é “caro e demorado”.

Desde que chegou, passou então a trabalhar de forma irregular, sem visto apropriado e nem contratos formais.

Ela diz que está tentando obter permissão para morar e trabalhar em algum país da União Europeia, bloco do qual o Reino Unido não faz mais parte desde 2020, onde ela acredita que pode conseguir a aprovação com mais facilidade.

brasileira começou trabalhando como faxineira (ou cleaner, em inglês, termo usado para designar profissionais da limpeza no Reino Unido). Segundo entrevistados pela reportagem, é um tipo de trabalho comum para brasileiros morando no país.

“Nunca tinha feito nada manual antes. Foi difícil, mas precisava trabalhar. No começo, senti vergonha. Hoje, só quero estabilidade”, diz Lívia.

Ela também trabalhou na limpeza da área de uma piscina de escola, cuidando de banheiros e áreas comuns, secando pisos e mantendo o local em ordem. Para isso, recebia 12,20 libras (R$ 88) por hora.

“Era muito cansativo, muitas horas de serviço, mas fisicamente mais tranquilo do que a limpeza de casas”, conta a brasileira.

O oceanógrafo Wagner, de 28 anos, que deixou Porto Alegre há três anos, vive frustrações parecidas. No Brasil, ele fez várias atividades acadêmicas em sua área, mas diz que a carreira não é valorizada no país.

“Vim para Londres para conseguir trabalhar, mesmo sem documentação, e pela qualidade de vida”, diz Wagner.

“Terminei minha graduação durante o intercâmbio, mas nunca consegui exercer a profissão — mais por falta de oportunidade do que por vontade própria.”

Mas, diferente de Lívia, Wagner já contava que poderia acabar trabalhando com limpeza. Atualmente, ele trabalha em um hotel londrino, por meio de uma agência, e recebe cerca de 2 mil libras (R$ 14,4 mil) por mês.

“Considero o salário baixo para o que é exigido. É um trabalho pesado. Tenho dores na lombar e nas mãos, uma rotina intensa, escala 6×1 e cansaço constante”, diz Wagner.

Antes de conseguir o trabalho atual, ele trabalhava como cleaner independente, recebendo entre 10 libras (R$ 72) e 13 libras (R$ 94) por hora — o suficiente apenas para pagar aluguel e suprir suas necessidades básicas.

Seus trabalhos também sempre foram irregulares. O oceanógrafo diz que nenhum tipo de visto se aplica a seu caso, por não ter vínculos familiares no Reino Unido, especialização ou um salário suficiente para atender aos requisitos exigidos.

“Além disso, são poucas as empresas dispostas a custear um visto de trabalho, ainda mais para mim, que sou recém-formado. Então, continuo trabalhando assim e juntando dinheiro, enquanto espero que apareça alguma oportunidade no futuro”, afirma Wagner.

“Fico triste de ver tantos brasileiros qualificados trabalhando com limpeza ou em funções abaixo do nível de formação que têm. O Brasil perde muita gente boa por não valorizar o que tem.”

No caso de Lívia, trocar o capacete de engenheira por vassouras e produtos de limpeza representa um recomeço indesejado — algo que ela jamais imaginou enfrentar, embora reconheça a dignidade do trabalho.

“Não é fácil ser chamada de faxineira após tanto tempo de estudo, mas aprendi na marra que todo trabalho é digno, e é isso que importa nesse momento”, conta a brasileira.

serrafm87

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