O senador deixou o país depois de ser proibido de viajar ao exterior e não entregou os passaportes, embora tivesse anunciado que cumpriria a ordem. As suspeitas sobre suas movimentações financeiras precisam ser esclarecidas e eventuais crimes devem resultar em responsabilização.
Fuga
Flávio precisa explicar por que descumpriu a determinação e como conseguiu viajar. A apuração sobre suas relações financeiras com o advogado Willer Tomaz deve prosseguir, assim como o esclarecimento sobre quem participou da saída do país. A crítica a Moraes não autoriza o senador a escolher quais ordens judiciais pretende cumprir.
Há ainda uma cronologia, no mínimo, curiosa. O sistema do TSE confirmou matematicamente o resultado às 21h09 de domingo. Às 21h16, apenas sete minutos depois, a PF assinou o pedido de apreensão do passaporte, dirigido diretamente a Moraes. O ministro autorizou a medida naquela noite. Chama atenção tamanha pressa e veemência após a definição eleitoral, sobretudo diante da demora para esclarecer as suspeitas envolvendo o próprio magistrado.
Moraes já era o relator do inquérito, o que explica o encaminhamento ao seu gabinete. É justamente sua permanência nessa função que precisa ser enfrentada. A investigação exige provas, direito de defesa e condições de produzir consequências. Um responsável cercado por suspeitas graves compromete a confiança no trabalho e facilita o discurso de perseguição.
Memória
O escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, firmou com o Master um contrato que previa aproximadamente R$ 131 milhões em três anos. A banca afirma que prestou os serviços. A dimensão do negócio exige transparência, especialmente diante dos elementos que apontam para a participação do magistrado.
A PF identificou, nos metadados de versões da minuta, o usuário “Ministro Alexandre de Moraes” como responsável pela última edição. O escritório explicou que o consultou sobre possíveis impedimentos à contratação. É preciso esclarecer a extensão dessa participação em um negócio privado de sua família.
Também foram divulgadas mensagens atribuídas a Vorcaro, dirigidas a um contato identificado como Moraes, com pedidos relacionados às investigações e referências ao comando da PF e à Procuradoria-Geral da República. As respostas não foram recuperadas, e o material divulgado não demonstra que os pedidos tenham sido atendidos. A negativa de favorecimento do ministro precisa ser verificada com o mesmo rigor aplicado às explicações dos demais envolvidos.
Credibilidade
Depois da negativa do gabinete sobre viagens em aeronaves de Vorcaro, apareceu um vídeo de Moraes e sua mulher desembarcando de um avião ligado ao empresário. O escritório confirmou os voos e explicou que contratava táxi aéreo, sem a presença do banqueiro.
O público tem direito de saber quem pagou, quais eram as condições e por que a negativa inicial foi tão categórica. Esperar que o brasileiro esqueça essa sequência porque a eleição terminou, ou porque Flávio fugiu, é um escárnio com a inteligência do brasileiro.
Fachin
É necessário o afastamento de Moraes enquanto sua conduta é submetida a uma investigação independente. Sua permanência no caso oferece a Flávio espaço para mobilizar apoiadores contra uma suposta perseguição e evitar as perguntas sobre suas próprias responsabilidades.
Fachin precisa conduzir uma resposta institucional. O julgamento de setembro foi interrompido por um pedido de vista durante a discussão do rito. Aquela sessão não esclareceu as suspeitas nem absolveu Moraes. Cabe ao presidente mobilizar o colegiado, cobrar a retomada da análise e enfrentar as condições em que o ministro continua atuando.
Isso se ele, Fachin, tiver brios para isso. O que até agora não demonstrou.
Flávio precisa ser investigado com rigor. A conduta de Moraes exige uma apuração igualmente séria. Fachin deve explicar quais providências pretende conduzir para que o Supremo dê andamento às duas cobranças.
Fonte: jc online







Comentários